Di Cavalcanti 

 

Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque Melo, mais conhecido como Di Cavalcanti, foi um pintor modernista, desenhista, ilustrador, muralista e caricaturista brasileiro. Sua arte contribuiu significativamente para distinguir a arte brasileira de outros movimentos artísticos de sua época, através de suas reconhecidas cores vibrantes, formas sinuosas e temas tipicamente brasileiros como carnaval, mulatas e tropicalismos em geral. Di Cavalcanti é, juntamente com outros grandes nomes da pintura como Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, um dos mais ilustres representantes do modernismo brasileiro.

A Exposição

A exposição exibiu nove obras, realizadas por Di Cavalcanti entre as décadas de 20 e 40 e selecionadas por Kuczynski ao longo de três anos em coleções particulares. As obras apresentadas fazem parte do período mais significativo da carreira do pintor, um dos expoentes da Semana de Arte Moderna na cidade de São Paulo, em 1922. Algumas peças nunca haviam sido expostas ao público. Caso do óleo “Descanso dos Pescadores”, presenteado ao romancista paraibano José Lins do Rego pelo próprio artista. Vale apreciar as formas geométricas de outra inédita, o pastel sobre cartão “Bordel”. Um mistério, por sua vez, envolve a aquarela “Poeta com Flor”, feita para ilustrar um poema de Oswald de Andrade numa revista. A montagem teve cenografia de Pedro Mendes da Rocha, e o poeta Ferreira Gullar assinou o texto do catálogo. 

Di Cavalcanti,

Pintor Brasileiro

Ferreira Gullar

 

Emiliano Di Cavalcanti foi um dos inspiradores da Semana de Arte Moderna de 1922 e que lhe deu esse nome. É verdade que, naquela época, ainda muito jovem, não inventara a sua própria linguagem pictórica e mal esboçara o universo imaginário que nos legaria com suas telas de marcante originalidade. De fato, o que importava, acima de tudo para os jovens modernistas, era romper com o passado, por essa condição primeira para inventarem a arte nova do Brasil, sonho que alimentavam com entusiasmo. O país que haviam herdado era ainda, para eles, a expressão da dependência e do colonialismo cultural, representados pelo academicismo artístico, do qual necessitavam libertar-se. Àquela altura, já alguns pintores, como Eliseu Visconti, tinham timidamente rompido com a arte acadêmica, aproximando-se do Impressionismo ou do Simbolismo. Mas também essa linguagem se esgotara e havia sido repelida pelas novas vanguardas europeias que insuflaram a rebeldia em nossos jovens artistas. A originalidade da pintura de Di tampouco ela surgiu de repente, já que suas primeiras obras estavam marcadas por uma mistura de primitivismo e ressonâncias cubistas, mais especificamente da influência picasseana. Não obstante, mesmo nessas obras iniciais, já se percebe uma temática diferente, mais carioca e sensual, se o comparamos com outros pintores modernistas. Para a invenção de uma linguagem própria, Di Cavalcanti encontrou apoio na reinvenção da brasilidade, que caracterizou o nosso modernismo, voltado para a busca de identificação com o país e sua cultura, distinguindo-se dos europeus entregues para questões preponderantemente estéticas. Uma das linhas de força das vanguardas europeias do começo do século xx era o interesse pelo lado selvagem da vida, seja fora, seja dentro do indivíduo, e de que a arte se tornou a expressão. Já no Brasil, onde a arte vigente, naquela época, era a expressão da cultura da elite social e cultural, a tendência foi redescobrir o Brasil primitivo, também selvagem, mas ingênuo; em lugar de descer no subconsciente, como fizeram os expressionistas, os nossos modernistas voltaram-se para o Brasil ignorado, anterior à civilização industrial. É nisso que a pintura de Di Cavalcanti difere de seus companheiros de revolução artística, pois, fala do Brasil urbano e suburbano daquela época e busca na mulher brasileira mestiça expressão de um novo conceito de beleza em contraposição à da arte acadêmica, que retratava a mulher branca e sofisticada. Di descobre uma nova Vênus: mulata, de lábios carnudos, seios bastos e quadris pronunciados. Essa descoberta alimentou sua pintura por longos anos e emprestou-lhe uma marca característica. Ele se tornou conhecido como “o pintor das mulatas”, o que era verdade mas vinha carregado de certo tom “folclórico”, de uma visão superficial, que não tocava o fundo da questão: a escolha da mulata como tema, por Di Cavalcanti, obede-cia tanto a uma identificação erótica com ela como à necessidade de manifestar seu inconformismo em face dos padrões de beleza feminina. Assim, ele recriou a figura da mulata e a transformou numa referência plástico-temática da moderna iconografia brasileira. Di, ao mesmo tempo que descobria um caminho próprio para a sua pintura, fazia dessa descoberta a expressão de uma nova concepção de beleza feminina, que substituía, não apenas cânones artísticos do passado, por novos, mas também o valor social da mulher mestiça como inspiradora do amor simples e sensual. Por tudo isso, Di Cavalcanti se tornou o poeta-pintor dessa musa erótica do povo. É verdade, no entanto, que na sua pintura, essa figura feminina, se não é mero símbolo sexual ou pitoresco, tampouco é o tema único de seus quadros. Pode-se afirmar, sem exagero, que não são menos importantes, como criação pictórica e expressão artística, as paisagens e naturezas mortas, que ele concebeu com a mesma entrega e a mesma qualidade artística. Talvez, muitos dos admiradores da arte de Di, fascinados por seus retratos femininos, não tenham apreciado com a necessária atenção a beleza das outras obras dele, de expressão menos óbvia. A verdade, porém, é que, quando se tem oportunidade de apreciar as diferentes fases de suas paisagens, percebe-se o quanto era ele um pintor consistente, vigoroso e imaginativo. Mas não só. Cumpre, finalmente, chamar a atenção para uma qualidade fundamental de sua obra: a atualidade de sua pintura, a força nova e intensamente presente, de uma expressão pictórica sem truques, fundada nas qualidades essenciais da pintura.